Segunda-feira, Novembro 14, 2011

O cuidar de si

Novo livro de Christian Dunker estuda as formas de relação do sujeito com seu semelhante

Vladimir Safatle

“A cura não apenas faculta amar e trabalhar, mas sugere que isso possa ser feito segundo uma nova forma de estar no mundo, uma forma que convida à criação e à invenção de outras maneiras de satisfação.”

Dificilmente poderíamos encontrar síntese melhor do que está em jogo na cura do sofrimento psíquico do que tal afirmação central no novo livro de Christian Dunker, Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica: Uma Arqueologia das Práticas de Cura, Psicoterapia e Tratamento (Annablume).

Partindo dela, Dunker propõe-se a traçar o lento quadro de constituição da cura do mal-estar, tal como ele aparece à consciência ocidental desde os gregos.

Andando na contramão do empreendimento de Michel Foucault, para quem as práticas de cuidado de si próprias ao mundo greco-romano não seriam comensuráveis com aquilo que encontramos nas modernas psicoterapias, em especial na psicanálise, Dunker quer expor relações de profunda solidariedade e pertencimento.

Sua larga experiência clínica permite-lhe reinscrever a psicanálise no interior de um conjunto de reflexões sobre a força produtiva e transformadora do poder que exercemos sobre nós mesmos ou que deixamos que outros exerçam sobre nós. Poder que, atualmente, se serve da “importância da autoridade pessoal do psicoterapeuta sobre o paciente” a fim de mobilizá-la para além de meros dispositivos de sugestão.

Que a tematização das estruturas do poder possa abrir “uma nova forma de estar no mundo”, eis algo que a guinada organicista da psiquiatria contemporânea faz questão de esquecer.

É preferível imaginar que nosso corpo vai mal a assumir que sofremos por não sermos capazes de redesenhar as engrenagens do poder que exercemos sobre nós mesmos. Ou seja, que sofremos por termos, digamos, uma má política de si.

Mas é para a urgência de tal reflexão que o robusto livro de Dunker acaba por nos levar. O que não poderia ser diferente para alguém que afirma ser o diagnóstico clínico “um diagnóstico das formas de relação do sujeito com o outro”.

Seu livro começa com a confrontação entre as duas vertentes da formação do Ocidente, a grega e a judaica, a respeito da experiência da dúvida de si, da dúvida a respeito de seu próprio lugar. Uma dúvida que expressa o caráter agonístico, conflitual do que se coloca para mim como destino.

Quem diz conflito fala necessariamente em política, em capacidade de negociação. Essa dupla política se organiza tendo em vista dois tipos possíveis de fracasso.

O herói grego (e Ulisses é aqui o maior exemplo) é assombrado pela possibilidade da “perda da alma”, do “excesso de indeterminação do espírito” que o faria duvidar do destino que ele sabe necessário. Por isso, ele vive a esconjurar tal indeterminação e a reafirmar obstinadamente seu destino.

Já o herói semita é aquele que precisa “confiar e agir sem dispor de todo o saber necessário para tal”, que deve aceitar viver com um nome impronunciável. Por isso, ele deve assumir a produtividade desse seu excesso de indeterminação.

Duas vias cruzadas que Dunker, com sua astúcia costumeira, não tem dificuldade em transformar em tendências internas às formas do adoecer psíquico. Fracassamos de duas formas: ou por mergulharmos em uma odisseia sem fim nem retorno, como um Ulisses sem Penélope, ou por perdermos a confiança no que é impronunciável, no que ainda não tem forma.

Entre essas duas possibilidades de fracasso, as práticas de cuidado de si herdadas pela psicanálise atuarão.

A partir desta célula motora, o livro de Dunker passará em revista vários momentos das práticas de cuidado de si (Montaigne com seus Ensaios, Descartes e suas Meditações, Hegel e a narratividade de sua Fenomenologia), até chegar à psicanálise.

Nesse trajeto impressionante, a capacidade de distinção e organização de Dunker leva o leitor a compreender como a psicanálise nunca poderia organizar-se a partir de um “conhece-te a ti mesmo”, mas sim de um “cuida de ti”.

Não exatamente um saber baseado no processo de decifração do inconsciente, mas a invenção de uma verdade resultante da capacidade de criar novas formas de vida.

Da Revista Cult, nº 162.

Segunda-feira, Julho 25, 2011

Da LAMA* ao caos

Fora toda a problemática que se tornou o uso e abuso de drogas no Brasil e no mundo, há aspectos que escapolem até mesmo a um olhar crítico mais incisivo. Lendo a revista Cult desse mês, que conta com um ótimo dossiê sobre Foucault, deparo-me com algo tão simples e tão claro para o que ainda não havia atentado.
Trata-se de entrevista dada pelo psiquiatra Gerardo de Araújo Filho, onde ele faz algumas análises sobre os avanços (que existem de verdade) e as dificuldades persistentes desde a criação da lei n° 10.216. Essa lei, que tem o objetivo de reformular a dinâmica da política de atenção às pessoas que necessitam de tratamento na saúde mental, preconiza o fechamento de hospitais psiquiátricos, além da não liberação para que se abra mais leitos psiquiátricos e a criação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPSs) e dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASFs), que são serviços com o intuito de substituírem a lógica hospitalocêntrica e psicologizante por uma que atendesse os usuários a partir da singularidade de cada um deles e construísse um projeto terapêutico com a participação da família e aproximação da sociedade.
Muito bem. Qual não foi minha surpresa quando li a seguinte pergunta e resposta, da qual reproduzo um trecho aqui:

CULT- Os leitos hospitalares e serviços são suficientes para a população?
Gerardo de Araújo Filho
- Não. Existem hoje pessoas desassistidas. Não sabemos o número porque nós, brasileitos, não temos esmero pela questão estatística. Mas tem uma grande parte que virou morador de rua,
está na cracolândia ou em casa, trancafiado.

Cracolândia. Qual a sua impressão ao ver em jornais ou telejornais essa localidade, no centro da cidade de São Paulo?
Pois bem, a lambança midiática que se faz em torno dessa região tem nos sido apresentada por diversas vezes, sempre associada ao uso do crack. E só... Quando imaginaríamos que um possível efeito do movimento da *Luta Antimanicomial seria dar como suporte a tantas pessoas apenas esse caos?

Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui.

Segunda-feira, Julho 18, 2011

Quantas auroras...


Ontem me dei conta de como alguns programas na TV têm mostrado o quanto ainda nos questionamos se fazemos ou não parte da natureza. Há dois tipos de discursos envolvidos e dois motes para o surgimento deles. Se a emissora quer encerrar bem o dia, fazemos parte da natureza: esportes radicais são mostrados (normalmente não são praticados in door); passeios ecológicos querem "trazer o homem de volta ao contato com a natureza", etc. Se quer colocar a culpa dos problemas no mundo: "o aquecimento global é culpa do homem e prejudica a natureza", não fazemos parte dela e só queremos acabar com ela; quando a agressividade vem à tona, o agressivo tem a mente doentia, pois o homem é diferenciado, já que a construção de uma civilização serviu para acabar com a barbárie e com a desrazão. No final das contas, é a humanidade querendo tornar a terra proveitosa para ela mesma...

O velho Freud já tinha atentado para isso há muito tempo. Em O mal-estar na Cultura, ele já escrevia: "Nunca dominaremos completamente a natureza, e nosso organismo, ele mesmo parte dessa natureza, será sempre uma construção transitória, limitada em adequação e desempenho".

O que estamos querendo?

Sábado, Junho 25, 2011

A arte e o frescor de vida

Fui tocado hoje, de novo, por Woody Allen. Seu último filme, Midnight in Paris, tem um quê de fantasioso que o faz delicioso de assistir.
De início, não é à toa que um dos cartazes de promoção do filme tem como fundo Noite estrelada, de Vincent van Gogh. É do encanto que essa obra promove à vista que talvez consigamos entender, antes de assistir ao filme, que se trata de uma noite vivida e sentida por um corpo embebido de um lema foucaultiano: tornar-se um verdadeiro autor e tornar a própria vida uma obra de arte.
Mas, a pergunta que o filme traz já logo nos situa numa incoerência: transformar em arte o passado, c'est très facile - é a vida presente que nos dá glorioso trabalho.
Para além de notas críticas, filosóficas ou poéticas, ir ao cinema assistir ao filme, para mim, seria uma ótima dica a dar ao leitor. Despertou-me novamente a sensação de frescor das grandes leituras, das grandes pinturas.... e da vida dos grandes artistas.
Agora, quão importante a fantasia de cada um...
Assista ao filme.

Segunda-feira, Novembro 15, 2010

O mal que os homens bons fazem

"Todos nós sabemos o que queremos dizer com homem 'bom'. O homem bom ideal não fuma nem bebe, evita linguagem de baixo calão, conversa na presença de homens exatamente o que falaria se houvesse mulheres presentes, vai à igreja com regularidade e tem ipiniões corretas sobre todos os assuntos. Tem verdadeiro horror ao mau procedimento e está ciente de que é nosso doloroso dever punir o Pecado. Tem horror ainda maior a pensamentos errados e considera ser responsabilidade das autoridades proteger os jovens contra os que questionam a sabedoria das opiniões aceitas, de modo geral, pelos cidadãos de meia-idade bem-sucedidos. Além dos seus deveres profissionais, aos quais é assíduo, ele dedica muito tempo a trabalhos que visam ao bem: pode estimular o patriotismo e o treinamento militar; pode promover a indústria, a sobriedade e a virtude entre os assalariados e seus filhos, cuidando para que as falhas sejam devidamente punidas; pode ser o curador de uma universidade e evitar uma admiração imprudente e precipitada pelo aprendizado por permitir a admissão de professores com idéias subversivas. Acima de tudo, é claro, sua 'moral', em um sentido limitado, deve ser irrepreensível.
Pode-se duvidar se um homem 'bom' no sentido acima descrito faz, na média, mais bem do que o homem 'mau'. Quando digo 'mau', me refiro ao homem oposto ao que estive descrevendo. Um homem 'mau' fuma e bebe ocasionalmente e até xinga quando pisam nos seus calos. Sua conversa nem sempre pode ser impressa e, às vezes, passa os domingos ao ar livre, e não na igreja. Algumas de suas opiniões são subversivas; por exemplo, ele pode pensar que, se desejamos a paz, devemos trabalhar pela paz, não pela guerra. Assume uma atitude científica contra o mau procedimento, como tomaria com seu atumóvel se ele se comportasse mal; argumenta que sermões e prisões não irão curar mais o vício do que remendar um pneu furado. No que se refere aos maus pensamentos, ele é ainda mais perverso. Sustenta que o chamado 'mau pensamento' é apenas um pensamento, e o chamado 'bom pensamento' consiste na repetição de palavras como um papagaio, o que lhe confere empatia a todos os tipos de excentricidades indesejáveis. Suas atividades fora do horário de trabalho podem consistir, basicamente, em divertimento ou, ainda pior, em fomentar descontentamento em relação a males evitáveis que não interferem no conforto dos homens no poder. E é até mesmo possível que, em se tratando de 'moral', talvez ele não considere seus lapsos de modo tão cuidadoso como faria um homem verdadeiramente virtuoso, defendendo-se com a perversa contra-argumentação de que é melhor ser honesto do que fingir dar um bom exemplo. Ao falhar em um ou em vários desses aspectos, um homem será considerado doente pelo cidadão médio respeitável e não terá permissão de assumir qualquer cargo de autoridade, como a de um juiz, um magistrado ou um diretor de escola. Esses cargos são ocupados somente por homens 'bons'".

Esse trecho faz parte do livro "Ensaios céticos", de Bertrand Russel. Impressionante forma de abordar o assunto da bondade, me faz pensar, entre outras coisas, que se trata de um excelente e vasto campo de pesquisa.

Quinta-feira, Julho 29, 2010

Eu sou atriz pornô, e daí?

Já fiz elogios ao que Contardo Calligaris escreve. Alguns de seus livros me ajudaram (e ajudam) na minha formação de psicanalista, com seu senso crítico bastante arrojado e sensível. Por este motivo, publico no Cotidianenses um texto dele que saiu na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, no dia de hoje. O título do original é o que deu origem ao título do post. A figura acima não faz parte do texto original.

Boa leitura! Comente.


RESISTI A pedidos e pressões para que comentasse o caso do goleiro Bruno. Não gosto de especular sobre investigações inacabadas ou acusações ainda não julgadas.
No entanto, especialmente nos crimes midiáticos, sempre há fatos e atos que merecem comentário e que não dependem da culpa ou da inocência de suspeitos ou acusados.
Por exemplo, durante a investigação sobre a morte de Isabella Nardoni, o fato mais interessante era a agitação da turba: diante da delegacia de polícia, os linchadores pulavam e gritavam indignados só quando aparecia, nas câmeras de TV, a luz vermelha da gravação.
Há turbas parecidas no caso do goleiro Bruno. E, além das turbas, também alguns delegados de polícia parecem se agitar especialmente quando as câmeras estão ligadas, o que, provavelmente, não contribui ao progresso das investigações.
Mas o que me tocou, nestes dias, foi outra coisa. Segundo o advogado Ércio Quaresma Firpe, que defende o goleiro Bruno, a polícia estaria investigando um crime inexistente, pois Eliza Samudio estaria viva e se manteria em silêncio e escondida pelo prazer de ver o Bruno acusado e preso. Para perpetrar essa vingança, aliás, Eliza não hesitaria em abandonar o próprio filho de cinco meses.
É uma linha de defesa que faz sentido, visto que, até aqui, o corpo de Eliza não apareceu. Mas o advogado Firpe, para melhor transformar a vítima presumida em acusada, tentou apontar supostas falhas no caráter de Eliza soltando uma pérola: "Essa moça", ele disse, "é atriz pornô".
Posso imaginar a expressão que acompanhou essa declaração: o tom maroto que procura a cumplicidade de quem escuta, uma levantadinha de sobrancelhas para que a alusão confira um valor especialmente escuso à letra do que é dito.
Estou romanceando? Acho que não. De mesa de restaurante em balcão de bar, já faz semanas que ouço comentários parecidos, de homens e mulheres, mas sobretudo de homens: Eliza Samudio era "uma maria chuteira", uma mulher fácil.
Será que essas "características" de Eliza absolvem seus eventuais assassinos? Claro que não, protestariam imediatamente os autores desses comentários. Mas o fato é que suas palavras deixam pairar no ar a ideia de que, de alguma forma, a vítima (se é que é vítima mesmo, acrescentaria o advogado Firpe) fez por merecer.
Pense nos inúmeros comentários sobre o caso de Geisy Arruda, aluna da Uniban: tudo bem, os colegas queriam estuprá-la, isso não se faz, mas, também, como é que ela vai para a faculdade com aquele vestidinho curto e tal?
No processo contra um estuprador, por exemplo, é usual que a defesa remexa na vida sexual da vítima tentando provar sua facilidade e sua promiscuidade, como se isso diminuísse a responsabilidade do estuprador. Isso acontece até quando a vítima é menor: estuprou uma menina de 12 anos? Cadeia nele; mas, se a menina se prostituía nas ruas da cidade, é diferente, não é?
Diante de um júri popular, essas considerações funcionam, de fato, como circunstâncias atenuantes: talvez estuprar "uma puta" não seja bem estupro.
Em suma, quando a vítima é uma mulher e seu algoz é um homem, é muito frequente (e bem-vindo pela defesa) que surja a dúvida: será que o assassino ou o estuprador não foi "provocado" pela sua vítima?
Atrás dessa dúvida recorrente há uma ideia antiga: o desejo feminino, quando ele ousa se mostrar, merece punição. Para muitos homens, o corpo feminino é o da mãe, que deve permanecer puro, ou, então, o da puta, ao qual nenhum respeito é devido: uma mulher, se ela deseja, só pode ser a puta com a qual tudo é permitido (estuprá-la, estropiá-la).
Além disso, se as mulheres tiverem desejo sexual próprio, elas terão expectativas quanto à performance dos homens; só o que faltava, não é? Também, se as mulheres tiverem desejo próprio, por que não desejariam outros homens melhores do que nós?
Seja como for, para protestar contra a observação brejeira do advogado Firpe, mandei fazer uma camiseta com a escrita que está no título desta coluna. Mas o ideal seria que ela fosse adotada pelas mulheres. Podem mandar fazer, sem problema; o advogado Firpe não tem "copyright" da frase.
ccalligari@uol.com.br

Quinta-feira, Julho 15, 2010

A Cultura

É isso a cultura: tudo o que o homem inventou
para tornar a vida vivível e a morte afrontável.
Aimé Césaire