Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

Menina Jesus

Valei-me, minha menina Jesus
minha menina Jesus
minha menina Jesus, valei-me.

Só volto lá a passeio
no gozo do meu recreio,
só volto lá quando puder
comprar uns óculos escuros.

Com um relógio de pulso
que marque hora e segundo,
um rádio de pilha novo
cantando coisas do mundo --
pra tocar.

Lá no jardim da cidade,
zombando dos acanhados.
dando inveja nos barbados
e suspiros nas mocinhas...

Porque pra plantar feijão
eu não volto mais pra lá
eu quero é ser Cinderela,
cantar na televisão...

Botar filho no colégio,
dar picolé na merenda.
viver bem civilizado,
pagar imposto de renda.

Ser eleitor registrado,
ter geladeira e tv,
carteira do ministério,
ter cic, ter rg.

Bença, mãe.
Deus te faça feliz
minha menina Jesus
e te leve pra casa em paz.

Eu fico aqui carregando
o peso da minha cruz
no meio dos automóveis,
mas

Vai, viaja, foge daqui
que a felicidade vai
atacar pela televisão

E vai felicitar, felicitar
felicitar, felicitar
felicitar até ninguém mais
respirar.

Acode, minha menina Jesus
minha menina Jesus
minha menina Jesus, acode.

No Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=YJs1zqRhDCc

Composição: Tom Zé

Segunda-feira, Janeiro 18, 2010

Os dias

Esses dias vi você piscando. É, vi você piscando esses dias. Principalmente, depois do cinema. Você piscando esses dias. Às vezes piscava muito. Não sei o motivo por que piscava tanto às vezes, mas é verdade, você piscava muito. Ah, os óculos. Será? Não. Aquilo, lembra?, aquilo que você me disse esses dias piscando: pensei que fosse mentira – claro, você piscava como alguém que contava uma baita mentira. Isso tudo foi esses dias. Tudo. Você piscava como se gostasse de brincar de deixar o olho seco, qual criança que faz isso só para irritar. Olho seco se irrita e aí você se força a piscar. Foi por isso que te vi piscando esses dias. Você estava brincando. Mais um motivo para eu acreditar que era mentira. E você mente, hein? Sei que está mentindo para mim. Como? Você estava brincando esses dias – brincando e piscando. É por isso que eu sei. Brincando, piscando, mentindo e tentando. Entender o quê? Já expliquei demais e estou dando assunto para você continuar com isso, não acha? Que a gente consegue? Deixa de piscar. Vai virar cacoete. Então vai cuidar do seu sono. Você vai querer cacoete pra quê? Lê aquele livro e descobre a cor dele. O título está de acordo com o que tem dentro? O samba tem bom ritmo? A pesquisa referenda bem a realidade? E aquela destruição toda do jornal? Deve ter sido um barulho matador. E as crianças, as velhas, você viu? E aquela violência? À toa toda dor? Parece até brincadeira, né? Mas, não é. É verdade. Ah, já sei por que você está piscando agora – igual esses dias. Não é cacoete nem brincadeira. Tudo bem, eu sei. Pode chorar. Eu concordo com você – os dias estão muito difíceis.

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Consolo para iniciantes

Vejam a criança em meio aos porcos que grunhem,
Desamparada, com os dedos dos pés dobrados!
Não pode senão chorar, somente chorar -
Aprenderá algum dia a se erguer e andar?
Não receiem! Logo, creio,
Poderão vê-la dançar!
Quando se puser sobre as duas pernas
Também se porá de cabeça para baixo.
Bela e cruel ironia de Friedrich Nietzsche, em "A gaia ciência".

video
Trecho do filme "Nós que aqui estamos por vós esperamos" (1999),
de Marcelo Masagão.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Último Romance

Eu encontrei quando não quis
Mais procurar o meu amor
E quanto levou foi pr'eu merecer
Antes um mês e eu já não sei

E até quem me vê lendo o jornal
Na fila do pão, sabe que eu te encontrei
E ninguém dirá que é tarde demais
Que é tão diferente assim
Do nosso amor a gente é que sabe, pequena

Ah vai!
Me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém
Afim de te acompanhar
E se o caso for de ir à praia eu levo essa casa numa sacola

Eu encontrei e quis duvidar
Tanto clichê deve não ser
Você me falou pr'eu não me preocupar
Ter fé e ver coragem no amor

E só de te ver eu penso em trocar
A minha TV num jeito de te levar
A qualquer lugar que você queira
E ir onde o vento for
Que pra nós dois
Sair de casa já é se aventurar

Ah vai, me diz o que é o sossego
Que eu te mostro alguém afim de te acompanhar
E se o tempo for te levar
Eu sigo essa hora e pego carona pra te acompanhar

Composição: Rodrigo Amarante
Banda: Los Hermanos

Domingo, Outubro 18, 2009

Uma experiência

Pergunto-me quanto à nossa época:
"De onde vem essa gana por conhecimento? Fala-se tanto da atual conjuntura para o exercício do pensamento (como sendo favorável para tal), de um aumento significativo na venda de livros potencialmente estimuladores do pensar, mas a crítica me parece tão burra. Será essa gana um fato realmente?"
Tanto quanto se diz da importância das Ciências Humanas para os dias de hoje e, no entanto, o que se vê é o seu sucateamento, desmerecimento e mau uso, tanto quanto já se disse, a partir de Foucault, que saber sobre o sexo só serviu para nos confundir ao fazê-lo, ou a recalcá-lo, acontece o mesmo com o exercício do pensamento: admira-se, exacerba-se, mas não se tem a inclinação para nem a experiência do pensar - ao contrário, mastiga-se o pensamento tentando ruminá-lo, mas seu embalsamento em enzimas e inócuos discursos apenas o mumifica. De resto, apenas o esvaziamos de crítica contundente, e simplesmente o engolimos com ajuda de Coca-Cola e Rivotril.

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Erro da vontade livre

Hoje já não temos mais nenhuma compaixão pelo conceito de "vontade livre": sabemos muito bem o que ele é - o mais suspeito artifício dos teólogos que existe; um artifício que tem por objetivo fazer com que a humanidade se torne "responsável" à moda dos teólogos, isto é, que visa fazer com que a humanidade seja dependente deles... Eu ofereço aqui apenas a psicologia de toda e qualquer atribuição de responsabilidade. - Onde quer que as responsabilidades sejam procuradas, aí costuma estar em ação o instinto de querer punir e julgar. Despiu-se o vir-a-ser de sua inocência, quando se reconduziram os diversos modos de ser à vontade, às intenções, aos atos de responsabilidade. A doutrina da vontade é inventada essencialmente em função das punições, isto é, em função do querer-estabelecer-a-culpa. Toda a psicologia antiga, a psicologia da vontade, tem seu pressuposto no fato de que seus autores, queriam criar para si um direito de infligir penas - ou queriam ao menos criar um direito para que Deus o fizesse... Os homens foram pensados como "livres", para que pudessem ser julgados e punidos - para que pudessem ser culpados. Conseqüentemente, toda ação precisaria ser considerada como desejada, a origem de toda a ação como estando situada na consciência (- com o que a mais fundamental fabricação de moedas falsas transformou-se, no interior do psicologicismo, em princípio da própria psicologia...). Hoje, quando adentramos o movimento inverso, quando nós imoralistas buscamos novamente com toda a força sobretudo retirar do mundo o conceito de culpa e o conceito de punição, purificando destes conceitos a psicologia, a história, a natureza, as instituições e as sanções comunitárias, não há em nossos olhos nenhum antagonismo mais radical do que o em relação aos teólogos que continuam a infectar a inocência do vir-a-ser com as noções de "punição" e "culpa", a partir do conceito de "ordem moral do mundo". O cristianismo é uma metafísica de carrasco...
Friedrich Nietzsche, "Crepúsculo dos ídolos", Os quatro grandes erros, af. 7.

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

Hoje

Nada tão contundente e esclarecedor para os viventes dos momentos do agora quanto esta simples frase:
"Estamos presos a um pântano de presunção" (Franz Kafka, 1884-1924).
Pintura: M.C. Escher, "Auto-retrato".